Você já falhou hoje?

Sempre tentei passar despercebido. Ser o bom filho, o bom marido, o bom profissional. Carreguei por muito tempo o rótulo de “bem-comportado”, o garoto exemplar, mesmo que no fundo eu duvidasse disso.
Durante a infância, e de certa forma até hoje, tive problemas com meu peso. Isso deixou marcas. Inseguranças. Um medo constante de me destacar, de ser visto, de virar alvo do julgamento dos outros.
E tinha uma coisa que eu fazia muito: observar.
Observava bastante. E, como era uma criança quieta, as pessoas não tinham pudor de falar coisas na minha frente. Segredos, julgamentos… talvez por não acreditarem que eu entenderia ou que um dia contaria.
E quem observa aprende rápido: as pessoas podem ser cruéis.
Hoje isso está escancarado na internet. Opiniões jogadas como verdades absolutas, julgamentos rasos, gente que não aceita ser contrariada.
Talvez por isso eu tenha escolhido me esconder.
O problema é que, ao mesmo tempo, sempre fui curioso. Sempre tive facilidade para aprender. Gosto de descobrir coisas novas. Tenho ideias. Muitas ideias.
Mas quase nunca começo.
E, quando começo, não termino.
Fico preso tentando aperfeiçoar algo que nem coloquei no papel. Pensando em versões melhores de projetos que ainda nem existem. E, no fim, não faço nada.
Talvez seja medo de falhar.
Talvez seja medo de perceber que não ficou tão bom quanto eu imaginei.
Ou, pior, medo do julgamento.
Hoje, aos 31 anos, isso pesa.
Porque, olhando para trás, sinto que não construí nada que seja realmente meu.
E não é falta de capacidade. Eu vejo pessoas fazendo coisas que eu faria igual, ou até melhor.
A diferença?
Elas fizeram.
Elas começaram.
Elas colocaram em prática.
E eu fiquei pensando.
Recentemente, me peguei refletindo: aonde esse medo me levou?
A lugar nenhum.
Então por que continuar vivendo assim? Por que gastar tanto tempo me preocupando com o que vão pensar, amigos, família, até minha própria esposa?
Se, no fim das contas, vão julgar de qualquer jeito?
Estou aqui, escrevendo isso. Me expondo.
Então me pergunto: de que adianta se esconder?
Me proteger de quê?
De pessoas que já me julgam sem me conhecer? Que criam versões distorcidas de quem eu sou?
Se é assim, que seja.
Prefiro tentar.
Prefiro falhar tentando do que continuar parado imaginando.
Então, sim.
Que se lasquem todos.
Hoje eu me permito falhar.
Porque falhar, pelo menos, significa que eu tentei.
E você?
Já falhou hoje?