Cap 1 – Marcos

Em um dos tantos multiversos que existem, Marcos foi nascer justamente naquele que poderíamos chamar de o mais “normal”. Nunca foi uma criança que se destacasse. Tirava notas razoáveis e não costumava dar trabalho aos pais.
Nasceu em Goiânia, a capital do estado, um centro urbano cercado por uma imensidão de cerrado e pastagens.
Agora, aos trinta anos, continuava sendo alguém difícil de notar. Quando adolescente, imaginava que aos dezoito já estaria milionário graças a um aplicativo revolucionário que mudaria o mundo. Como a maioria de seus grandes projetos, aquela ideia jamais saiu do papel.
No fim das contas, sua vida tomou um rumo muito mais comum.
Era programador, trabalhava em home office, recebia um salário confortável e dividia seu apartamento com um cachorro preguiçoso e uma quantidade questionável de equipamentos eletrônicos espalhados pelos cômodos.
Aquela deveria ser apenas mais uma segunda-feira entre tantas outras.
Às sete da manhã, o celular começou a berrar com o toque que ele já não suportava ouvir. O som parecia agredir seus ouvidos. Ainda meio adormecido, revirou-se na cama procurando o aparelho para desligá-lo.
Quando finalmente abriu os olhos, percebeu uma nova mancha no teto.
-Bege… Acho que eu deveria pintar esse teto de bege…
Antes que pudesse concluir o pensamento, seu estômago roncou. E roncou alto.
Incomodado, Marcos esfregou os olhos e levantou-se em direção ao banheiro para cumprir sua rotina matinal de resmungos e preparação para o trabalho.
Tomou banho, escovou os dentes e lançou um olhar para seu cachorro, que continuava deitado, completamente indiferente ao barulho que ele fazia. O animal só abriu os olhos quando Marcos acendeu o fogão e colocou a frigideira para aquecer.
Dois ovos com queijo, duas fatias de pão e uma caneca generosa de café. Marcos jamais esqueceria de seu grande amigo, aquele que o ajudava a despertar todas as manhãs e a enfrentar a rotina tediosa que levava.
O relógio já marcava 7h40 quando Marcos terminou de se arrumar, tinha de ligar o computador as 08:00 para seu trabalho. Antes, porém, havia uma obrigação inegociável. O passeio matinal do Simon (seu cachorro).
Os dois desceram e deram a tradicional volta no quarteirão.
Nada fora do comum.
Ou quase.
Quando retornavam para o prédio, Marcos avistou a vizinha do apartamento em frente ao seu.
Ela acabava de sair de um Uber.
Era raro vê-la por ali. Na verdade, era raro vê-la em qualquer lugar. Parecia estar sempre viajando.
O motorista descarregava algumas malas enquanto ela retirava do porta-malas uma caixa de madeira escura.
Marcos diminuiu o passo.
A caixa chamou sua atenção imediatamente.
Estranhos símbolos estavam gravados em toda a superfície, formando desenhos que lembravam os círculos mágicos e runas que ele costumava ver em filmes e jogos.
Por um breve instante, jurou ter visto uma luz azulada escapar por uma das frestas da madeira.
Piscou.
A luz desapareceu.
-Deve ser reflexo – murmurou para si mesmo.
Sem dar muita importância, continuou caminhando.
Marcos nunca soube exatamente o que aquela mulher fazia. Sabia apenas que trabalhava como curadora de arte.
Ainda assim, havia algo nela que não combinava com galerias e exposições.
Algo difícil de explicar.
A mulher devia ter pouco mais de trinta anos. Era bonita, mas não era isso que chamava atenção.
Era o olhar.
Como se estivesse observando algo que ninguém mais conseguia enxergar.
Como se soubesse alguma coisa que o resto do mundo ignorava.
Talvez por isso Marcos sempre evitasse conversar com ela.
Enquanto se aproximava da entrada do prédio, tentou manter o olhar fixo na porta para não precisar interagir.
Não funcionou.
Ela ergueu os olhos.
Os dois se encararam.
E então ela sorriu.
O estômago de Marcos se revirou imediatamente.
Não era um sorriso estranho.
Era exatamente o contrário.
Natural demais.
Como se ela estivesse esperando encontrá-lo.
-Bom dia, Marcos.
Ele congelou.
Não se lembrava da ultima vez que interagiram.
-Bom dia…
Ela apontou para as malas e para a caixa.
-Você poderia me ajudar a subir essas coisas?
Antes que ele respondesse, ela abriu um sorriso ainda maior.
-Preciso da ajuda de um homem forte e bonito como você.
Por alguns segundos, Marcos simplesmente esqueceu como funcionava a fala humana.
Seu cachorro pareceu muito mais preparado para lidar com a situação do que ele. O animal apenas sentou ao seu lado e observou a cena com a tranquilidade de quem não tinha contas para pagar nem reuniões pela manhã.
-Eu… claro – respondeu Marcos, finalmente.
Luiza sorriu, satisfeita.
Os três seguiram para dentro do prédio. Enquanto aguardavam o elevador, Marcos tentou pensar em algo inteligente para dizer, mas sua mente parecia ocupada demais tentando entender por que aquela mulher o deixava tão desconfortável.
As portas se abriram.
Durante a subida até o décimo terceiro andar, o silêncio dominou o elevador. Marcos carregava uma das malas e a estranha caixa de madeira. Quanto mais perto estava dela, mais conseguia observar os símbolos gravados em sua superfície.
Eles pareciam antigos.
Antigos demais.
Por um instante, teve a impressão de que alguns traços brilhavam fracamente sob a luz do elevador.
Quando piscou, o brilho desapareceu.
Talvez fosse apenas sua imaginação.
Ele quase questionou sobre aquele objeto, mas nem se deu ao trabalho, deveria ser mais uma bugiganga ou algo algum item religioso de Wica ou alguma religião do tipo.
Ao chegarem ao corredor, Marcos colocou os pertences ao lado da porta do apartamento de Luiza.
– Muito obrigada pela ajuda – disse ela.
– Não foi nada.
Ela sorriu novamente.
O mesmo sorriso que fazia seu estômago dar pequenas cambalhotas sem motivo aparente.
Marcos retribuiu com educação, desejou um bom dia e atravessou o corredor até seu próprio apartamento.
Assim que fechou a porta atrás de si, soltou um suspiro.
Olhou para o relógio.
7h58.
Tempo suficiente para preparar mais um café antes de começar o expediente.
Ligou o computador, sentou-se à mesa e tentou focar nas tarefas que o aguardavam.
Tentou.
Porque, por mais que não quisesse admitir, sua mente continuava voltando para a caixa coberta de símbolos estranhos.
E para a luz azul que tinha quase certeza de ter visto escapar de dentro dela.
Ainda assim, o trabalho não esperava.
As horas seguintes foram consumidas por reuniões, correções de código, mensagens em grupos corporativos e toda a infinidade de pequenas tarefas que pareciam existir apenas para ocupar espaço na agenda.
Por volta das dez da manhã, durante uma reunião particularmente entediante, Marcos abriu discretamente uma segunda janela no monitor.
Ali estava Ustralof.
Seu mago nível 98.
O personagem que o acompanhava havia anos.
Enquanto os colegas discutiam métricas, cronogramas e prazos, Ustralof atravessava florestas encantadas, derrotava criaturas mágicas e acumulava experiência.
Marcos havia escrito um pequeno script para automatizar as tarefas mais repetitivas do jogo. Tecnicamente aquilo era proibido.
Por isso, de tempos em tempos, alternava rapidamente para a janela do jogo para verificar se tudo continuava funcionando e, principalmente, se sua conta ainda não havia sido banida.
Era um hábito antigo.
Uma pequena herança de sua adolescência.
Quando a vida parecia mais simples.
Marcos sempre escolhia magos quando jogava RPGs ou qualquer outro jogo de fantasia. Desde criança, gostava de histórias sobre magia, artefatos antigos, dimensões paralelas e poderes sobrenaturais.
Por alguns anos, chegou até a frequentar eventos de cultura geek usando capas, cajados improvisados e roupas que faziam sua mãe questionar seriamente suas escolhas de vida.
Sorriu sozinho ao lembrar.
Fazia muito tempo desde a última vez que pensara nisso.
A vida adulta tinha o estranho hábito de transformar sonhos épicos em planilhas, reuniões e boletos.
Mesmo assim, aquela fascinação nunca desapareceu completamente.
Talvez por isso a caixa tivesse chamado sua atenção naquela manhã.
Talvez por isso aqueles símbolos continuassem voltando à sua mente.
Ou talvez fosse apenas porque Luiza estava envolvida na história.
Enquanto observava Ustralof atravessar uma antiga ruína digital repleta de runas brilhantes, Marcos se pegou pensando nela novamente.
Curadora de arte.
Viajando constantemente.
Uma caixa coberta por símbolos estranhos.
Uma luz azul surgindo entre as frestas.
Parecia exatamente o tipo de coisa que seu eu adolescente teria transformado em uma teoria conspiratória sobre magia escondida no mundo moderno.
Marcos soltou uma pequena risada.
Se tivesse puxado assunto, provavelmente descobriria que a caixa era apenas alguma peça de coleção.
Ainda assim…
Uma parte dele lamentava não ter perguntado nada.
Porque, por mais absurda que a ideia parecesse, não conseguia afastar a sensação de que havia algo diferente naquele objeto.
E, principalmente, em Luiza.
Marcos então voltou para suas tarefas, e o dia passou sem muitas novidades, ele somente tirou sue almoço e dormiu como sempre fazia.
Perto do final do espediente do outro lado da sala, Simon soltou um rosnado baixo.
Marcos ergueu os olhos.
O cachorro estava parado no atras da porta que separava o apt do corredor.
Imóvel.
Olhando para a porta.
– O que foi, garoto?
Simon não respondeu. Continuou encarando a porta.
Então as orelhas se ergueram.
Outro rosnado.
Mais intenso.
Marcos franziu a testa.
Aquilo era estranho.
Simon raramente latia para qualquer coisa.
Foi então que ouviu.
Um ruído abafado.
Como algo pesado sendo arrastado do outro lado.
O som durou apenas alguns segundos.
Depois parou.
E, por um instante, Marcos teve a impressão de ouvir algo mais.
Uma voz.
Não palavras.
Não frases.
Em uma língua que ele nunca tinha ouvido antes.
Marcos permaneceu alguns segundos olhando para a porta.
O som não se repetiu.
Simon também pareceu perder o interesse e voltou para sua cama na sala, como se nada tivesse acontecido.
– Deve ser a televisão da vizinha – murmurou.
Não acreditou muito na própria explicação, mas também não tinha nenhuma melhor.
Voltou a atenção para a tela.
Foi então que percebeu o horário.
18h30.
Uma hora e meia além do que deveria ter trabalhado naquele dia.
– Ótimo…
Rapidamente registrou a saída no sistema da empresa e fechou os programas que ainda estavam abertos.
Seu estômago roncou quase imediatamente.
Era o lembrete de que havia pulado o lanche da tarde mais uma vez.
Pensou em cozinhar alguma coisa.
Desistiu da ideia poucos segundos depois.
Ainda precisava ir para a academia, passear com Simon antes de dormir e, sinceramente, não tinha energia para preparar o próprio jantar.
A solução era simples.
Espetinho.
Do outro lado da rua havia uma pequena barraca que frequentava há anos.
A dona adorava Simon e sempre guardava um pedaço extra de carne para ele.
Bastava o cachorro aparecer para começar a receber mais atenção do que o próprio Marcos.
– Vamos, garoto. Hora de visitar seus fãs.
Ao ouvir a palavra “vamos”, Simon imediatamente levantou as orelhas.
Trinta segundos depois já estava na porta, abanando o rabo com uma empolgação que não demonstrara durante o resto do dia.
Marcos pegou a guia, verificou se a tranca digital tinha sido ativada.
Foi então que percebeu.
A porta do apartamento de Luiza estava entreaberta.
Apenas alguns centímetros.
E, por trás da fresta escura, viu aquela caixa em cima da mesa de centro da sala emitindo uma luz azul muito suave.
Marcos parou por um instante.
Observou.
Piscou.
O brilho continuava lá.
Uma parte dele considerou se aproximar.
Talvez chamar Luiza e perguntar sobre aquela estranha caixa que o deixava hipnotizado;
Mas outra parte – uma parte muito maior e muito mais interessada em comida – lembrou que ele estava com fome.
Muita fome.
– Espero que não seja cesio 137 – murmurou.
Simon puxou a guia, ansioso para sair.
– Já estou indo.
A porta misteriosa, a luz azul e a vizinha estranha continuaram exatamente onde estavam.
O espetinho, por outro lado, poderia acabar.
E prioridades eram prioridades.
Alguns minutos depois, ele já atravessava a rua acompanhado de Simon.
A rotina venceu mais uma vez.
Ou pelo menos foi isso que Marcos acreditou.
Porque naquela noite ele tinha planos bem mais importantes.
A guilda havia marcado uma raid para mais tarde.
Meses de preparação.
Itens raros.
Chefes difíceis.
E a possibilidade de finalmente conseguir o equipamento que perseguia há semanas.
Se tudo desse certo, provavelmente passaria boa parte da madrugada conectado ao Discord com os amigos.
Se tudo desse errado…
Bom.
Provavelmente também passaria boa parte da madrugada conectado ao Discord reclamando com os amigos.
De qualquer forma, parecia uma noite comum.
A última coisa que Marcos imaginava era que, antes do amanhecer, sua vida inteira mudaria.